Crônicas de Atlântida Vol 1 - A magia está apenas começando! E você, está preparado?

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A coleção Crônicas de Atlântida é baseada nos Upanishads, no gnosticismo primitivo, nos Diálogos de Platão, na Doutrina Secreta de Helena P. Blavatsky e na mitologia greco-romana. É uma aventura mística que se passa em Atlântida antes do dilúvio, ou afundamento daquele Continente. Uma terra cheia de heróis e magia por toda parte, mas que esconde um segredo que pode mudar a vida dos atlantes para sempre. 

Conheça agora um trecho do Vol 1 - Netuno e O Mistério de Atlatis: 

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...Uma menina de cabelos encaracolados brincava com um grupo de sereias naquela praia de areia finas e brancas. Entrementes, avistou um artefato que chamou de imediato sua atenção.

            Saiu sorrateiramente e disparou em busca daquele material curioso. Quando tocou a caixa, sentiu um estranho calor em suas mãos. Ficou intrigada com aquelas cobras entalhadas que pareciam dispostas a quebrarem-se a deixar abrir a arca.

            Colocou a mão na boca e murmurou: É uma caixa de segredos!

            - Cassandra, o que tem aí?

            A garota entortou o pescoço e pensou consigo: Aquele enxerido do Netuno vai querer ficar com o baú para ele. Mas se eu o achei era porque queria que eu o encontrasse, e com certeza cabe a minha pessoa desvendar seus segredos.

            - Não é nada não... Vá cuidar de seus cavalos! – Mentiu ao príncipe.

            O príncipe Netuno era filho de Chronos e herdeiro do trono de Atlântida. Adorava cavalos, e naquele momento estava a adestrar Pégasus, um filhote eqüino alado.

            Pégasus era tão branco que ofuscou a visão de Cassandra. Netuno, desconfiado que era, ameaçou descer dos rochedos para investigar. Mas a menina foi mais ligeira e escondeu o artefato em seu vestido e saiu correndo.

            Chegou a um complexo de templos suntuosos. Aquelas construções de pedras possuíam verdadeiros labirintos de corredores. Cassandra seguiu por um deles e chegou a um jardim interno dedicado a Mnemosyne, a memória.

            Acendeu uma pira que exalava um perfume delicioso de nardo. Pegou uma enorme aljava cheia de papiros antigos e amarelados. Assoprou-os e uma nuvem de poeira embolorada a fez espirrar. Depois, debruçou-se sobre eles e começou a ler sem parar.

            Por horas inteiras e dias inteiros ela leu e releu centenas de documentos e anotações arcaicas.

            Por fim, desgastada pelo fracasso de suas investidas por tentar desvendar o mistério, ela recorreu ao Oráculo.

            Carregando escondida a intrigante caixa cruzou a Ilha de Temyscera até o conglomerado de pedras oscilantes.

            Aquelas rochas enormes de quase uma dezena de metros estavam enfileiradas em forma de ferradura.

            No centro havia um altar de mármore branco, e sobre ele, descansava uma bacia de prata cheia de água até a borda.

            Quando Cassandra retirou a arca de sua bolsa de couro de dragão verde, as pedras emitiram sons agudos, graves e melancólicos.

            Aquelas rochas, que normalmente flutuavam a meio palmo do solo, passaram a realizar um balé estranho e monótono, mudando de cor de acordo com a nota que emitiam.

            Contudo, Cassandra não mostrou interesse. Colocou a caixa sobre o pedestal esbranquiçado e olhou fixamente à água dentro da salva.

            Com uma paciência quase angelical, a mocinha fitou a transparência aquosa até que seus olhos incharam pelas lágrimas. Por fim, entrou em transe e viu uma figura da cobra que mordia seu próprio rabo, mas em seu centro havia uma caveira. Morte! – Pensou.

            Mas isso não respondia nem em parte suas dúvidas, indagações e curiosidades.  Afinal, Cassandra sabia que os antigos gigantes titãs não deviam ter tido o trabalho de montar um campo de vidência com aquelas rochas que pesavam toneladas apenas para mostrar o óbvio. Devia haver algo mais. Alguma coisa que valesse à pena estudar. Um caminho a seguir para descobrir a clave.

            Todavia, por mais que insistisse em seu transe, nada mais era mostrado. Irritada, pegou a caixa com seus punhos e a atirou contra uma das pedras oscilantes.

            A rocha se esquivou e a caixa caiu na relva que pegou fogo. Após, as pedras passaram a murmurar uma única palavra que a aprendiz demorou a entender, pois pareciam que falavam numa assembléia, todas duma vez.

Chegou-se com o ouvido quase colado numa rocha púrpura, e finalmente entendeu o recado: Sésamo!

A garotinha colocou as mãos na boca e afagou um grito: Sésamo, é isso!

Saiu em disparada ao templo da memória e aos tropeços encontrou um livro feito  com páginas de rochas. Nele havia letras rúnicas gravadas à ferro. O problema é que não tinha força suficiente para abri-lo. Precisava achar alguém de confiança, e de preferência, que não fizesse perguntas.

Sentou num banquinho e ficou pensativa. Os atlantes eram conhecidos por serem linguarudos, portanto, não recomendáveis. Os temyscerianos, por outro lado, eram curiosos por demasia. Mas ela sozinha não conseguiu nem mesmo retirar o livro da estante, quem dirá abrir página por página.

Este livro deve pesar uma tonelada! – Refletiu. – Preciso encontrar alguém burro e tapado o suficiente para me ajudar com completa discrição. Mas quem?

De repente, seus olhos brilharam de prazer. Claro, só pode ser ele!

Sem alarde, Cassandra foi ao palácio real. O jovem rei Ares estava tão entretido em seu treinamento com as espadas que até um elefante poderia passar despercebido.

Procurava, contudo, por um gigante.

Menoécio era um titã tão feio e estúpido que Cassandra achava difícil acreditar que ele descendesse da linhagem de ouro da Atlântida.

O colosso tinha pêlos por todo o corpo e era tão desengonçado que parecia andar como uma pata choca. Mas ela não tinha muitas escolhas, precisava de alguém forte para que pudesse virar as páginas do Livro das Pedras Oscilantes. Sabia que nele estariam as respostas que tanto inquiria.

Pois bem, chegou-se ao titânico e, graciosa, pediu para que lhe acompanhasse até o templo da deusa memória. O titã foi logo dando bronca:

- Mené não tem tempo. Está aqui em missão oficial. Peça para seus pares.

- Ah Menezinho, eu acabei de lembrar que temos ovelhas cruas e deliciosas no templo. Se me ajudar pode degustá-las à vontade.

- Não sei não... Isso está me cheirando à encrenca! Mas tudo bem, Mené está com uma fome de leão!

Os dois chegaram rápido ao suntuoso edifício sagrado. Cassandra teve de ir correndo para tentar acompanhar os passos largos de seu amigo gigante. Chegou de língua de fora e bebeu uma jarra inteira de baba de dragão.

Mené pegou o livro reclamando. Cassandra o afagou acariciando os pêlos de suas mãozorras que abriam as páginas com um estrondo.

            Cassandra, apesar de menina, era uma grande estudiosa de runas antigas, por isso, não precisou de muito tempo para achar o símbolo da cobra mordendo seu próprio rabo: a runa Odin.

            - Obrigada Menezinho... Pode ir à cozinha e comer muito... Ficarei aqui estudando estas escritas. Obrigada mesmo viu, meu pêlo fofo.

            O titã deu uma olhada de esgueira para ela, mas não discutiu. Cassandra deu graças aos céus quando ele saiu, pois estava quase vomitando pelo mau cheiro.

            A mocinha debruçou-se sobre a imensa página rochosa e passou a interpretar as runas arcaicas.

            Porém, não foi capaz de compreender o real significado da Odin, pois necessitava estar junta a outras para reportar uma escrita, ou recado, entendível.

            Desanimada, passou a virar e revirar a arca tentando achar uma brecha para olhar lá dentro. Mas nada encontrava, a caixa estava completamente selada.

            Todavia, reparou que algumas das serpentes se assemelhavam à figuras geométricas quando olhadas de determinados ângulos. Passou a desenhá-las e para sua surpresa, também eram runas.

            Não desistiu até encontrar as runas correspondentes a todas as serpes. Desenhou-as num papiro e começou a fuçar nas anotações antigas.

            O problema era que as runas representavam, de fato, uma linguagem estrelar. Os símbolos foram passados aos atlantes pelos titãs, e para esses últimos pelos antigos habitantes do continente Lemúria, ou Pangea. Assim, era necessário ordená-las de tal maneira que ficassem como numa abobada celeste, pois representavam astros e estrelas, e lendo-as da direita para a esquerda, os lemurianos representavam à escrita dos cosmos.

            Cassandra foi surpreendida pela entrada de uma garotinha de pouco mais de oito anos. Otrera era seu nome.

            - Por que anda sumida?

            - Ando ocupada. Tenho estudado as runas.

            - Nossa que caixa engraçada... Ai. Esta cobra do meio me picou!

            - Não bobinha, ela não picou não! É um encantamento de Sésamo. Elas esquentam bastante quando as tocamos e parece que nos picam.

            Otrera mostrou-se enojada pela caixa e a atirou em cima de algumas almofadas. Cassandra indagou:

            - E o casamento, como vai?

            - É muito estranho a gente ser criança e ao completar 15 anos ser entregue ao marido. Mesmo que este seja o Rei Ares.

            - Bem, se não quiser casar-se pode virar uma vestal dos Lumisais.

            - Nem pensar. Deixar a chance de me tornar rainha. Não senhora.

            Otrera foi prometida a Ares em seu nascimento. Os astrólogos da Ilha de Temyscera disseram que o destino a queria como rainha, e que somente Ares poderia tornar isso realidade.

            - O que tem dentro desta caixa esquisita?

            - É o que eu estou tentando descobrir.

            - Ah, então a mocinha esconde um guardador de segredos?

            Cassandra virou-se de sobressalto. Uma baforada de dragão arrepiou seus cabelos. Netuno havia adentrado à recâmara acompanhado de seu réptil alado Draco.

            Draco era um jovem dragão amarelo, bravo e tempestuoso como seu dono.

            - Como ousa entrar com esse animal aqui?

            - Eu nunca tenho de dar explicações sobre meus atos, aliás, nem preciso escondê-los, mocinha.

            - Não sou mocinha, meu nome é Cassandra!

            - Que seja e pouca diferença faz! Diga-me, o que esconde debaixo daquela almofada.

            - Nada de teu interesse.

            - Ah, é mesmo? Então por que a senhora saiu acompanhada daquele gigante bobão. Ah, olha isso, o Livro das Pedras Oscilantes. Tem estudado as runas? Foi para isso que trouxe o pamonhão? Para apanhá-lo para você? Em segredo?

            Cassandra ficou quieta. Netuno tomou a arca nas mãos e exclamou:

            - Hum... selado pelo Sésamo! O que tem dentro?

            - Você conhece o encantamento do Sésamo?

            - Claro, sou um atlante, não?! Você não respondeu minha pergunta. O que tem dentro da caixa?

            - Eu não sei. E se soubesse nunca diria.

            - Deve ser algo grave – disse chacoalhando o artefato, – parece haver alguma coisa metálica dentro dele. O que será?

            - Já disse que não faço idéia.

            - Mas você estava olhando as runas. – Entrou na conversa Otrera.

            - Claro! Essas cobras fazem figuras geométricas. Você não é tão tansa quanto eu pensava.

            - Pegue seu dragão e vá embora!

            - Só depois de descobrir o que tem aqui dentro. Vou ajudar a decifrar as runas. Sou bom nisso.

            - Mas mesmo se conseguirmos, como vamos abri-la?

            Netuno mirou para a caixa os dedos polegar, indicador e médio da mão direita e disse:

            Abra-te Sésamo!

            A caixa vibrou, emitiu um sibilo e manteve-se intacta.

            - Que genialidade. Acha que já não fiz isso?

            - Vou descobrir como se abre isso nem que passe o resto da vida tentando.

            Netuno fez como se fosse vomitar. Mas ao invés do vômito, saiu de sua boca uma fumaça colorida e cristalizou-se ali um rapaz loiro, cabelos baixos e olhos azuis. Era seu elemental.

            Os elementais eram os magos que habitavam em tudo que existia. Normalmente, se apresentavam como crianças de pouca idade, mas no caso de Netuno, o elemental já era quase adulto.

            - Puxa vida, eu não acredito! Você consegue expulsar seu intercessor!

            - Grande coisa! – Retrucou Cassandra.

            Educado, o elemental deu uma piscadela para a meninha e fez reverência para Cassandra. Depois dirigiu-se ao seu jovem mestre.

            - Em que posso servi-lo, hoje?

            - Reconhece essas runas?

            - Sim, mas será necessário ordenar as 13 corretamente para conhecer seu significado.

            - Tente abrir a arca.

            O intercessor apontou seu dedo indicador e bang! Um pequeno raio luminoso saiu dele e atingiu a caixa. Ela emitiu um sibilo mais agudo que o anterior, mas mantivera-se cerrada.

            - Quero que vá à capital atlante e traga-me todos os pergaminhos que encontrar sobre essas runas, e alguma coisa que nos ajude em como abrir este Sésamo.

            - Isto será feito.

            Dito isso, o elemental desapareceu feito fumaça. Netuno e Cassandra debruçaram-se sobre o livro de pedra e começaram a trocar idéias sobre os significados das runas.

            Não demorou muito, entraram vestais trazendo todo tipo de sobremesa. Otrera adormeceu sobre as asas quentes de Draco, enquanto os dois estudiosos se preparavam para adentrar a noite com inúmeras anotações antigas para ler e traduzir ao watan, a língua atlante.

            - Fógus... – Disse Netuno apontando novamente seus três dedos da mão direita, recolhendo os demais, para algumas piras oleosas. Elas crepitaram e se incendiaram.

            - Acenda esta aqui também! – Pediu Cassandra.

            O jovem mirou seus dedos armados para o fogo e dele saiu uma salamandra com chapéu cônico que saltou ao archote, fazendo-o inflamar.

            Durante horas ficaram os dois a traduzir e comentar seus achados até que por fim adormeceram.

Já era de madrugada quando um estrépito os acordou de sobressalto. O elemental trouxe-lhe dois barris cheios de pergaminhos e anotações antigas.

Draco passou a se contorcer e se espreguiçar, o que acordou Otrera.

O Réptil rumou noite afora. Netuno comentou.

- Draco deve estar faminto. Deve ter ido caçar algum dodô perdido por aí.

- Sempre achei que seu negócio fosse a água. No entanto, domina também o ar e as terras. Não o entendo!

- Conquistas, minha cara! Conquistas, coisas que mulher não entende!

- Eu não entendo mesmo. Não sei pra quê ter mais do que pode carregar em seus braços.

- Meus braços são compridos e fortes!

- Ah, homens... Ainda vai chegar um dia em que nós mulheres daremos a nota de comando.

- Duvido. Mas chega de conversa. Veja o que achei aqui... Um encantamento de Sésamo...

O papel encardido trazia algumas runas iguais as que Cassandra desenhara num papiro.

- Mas essa linguagem eu desconheço. Ela parece selar com duas chaves...

- Sim, se quisermos abrir teremos que encontrar a outra parte do mistério, pelo menos é que diz aqui.

- Sabe, não faz muito tempo eu peguei uma conversa entre o Rei Chronos e Zeus. Eles falavam de uma arma...

- Arma?

- Sim, diziam que era tão poderosa que não cabia a um homem tê-la. Seria perigoso demais.

- E você acha que poderia estar aqui dentro? Que tipo de arma era?

- Não pude continuar a ouvir... Pandora me descobriu e mandou-me limpar os estábulos.

- Pandora... Eu como um abacaxi como ela está envolvida até o pescoço nesse encantamento.

- Depois eu tentei descobrir que tipo de arma era com meu pai, mas ele ficou furioso e me mandou limpar os estábulos de novo...

- Entendo, e Pandora? Tem visto a bruxa?

- Nunca mais a vi. Sei que estava indo para a Ilha de Phebo.

- Ai, estou muito curiosa... Precisamos decifrar esses códigos!

Netuno começou a copiar as runas em pedras. Cassandra compreendeu prontamente. Haveria flexibilidade em rearranjar as escritas sagradas, até que por fim fizessem sentido.

- Veja – começou Netuno, – as runas sempre devem ser lidas ao contrário. Nosso desafio está em encontrar o início e o fim delas. Não creio que Odin seja o início. Vamos começar a ordená-las e interpretaremos cada tentativa. Topa?

- Sim, não vou conseguir dormir mesmo. Estou muito ansiosa.

E começaram uma maratona de ensaios runísticos. Todavia, Netuno foi interpelado com a entrada de um mensageiro que ordenava sua presença perante o rei.

O príncipe foi a contragosto. Porém, Cassandra o tranqüilizou que continuaria a interpretação. E assim foi.

Já era hora do almoço quando Netuno retornou com cara amarrada.

- Aquele Mené é mesmo um problema.

- O que aquele abobalhado de cabeça oca fez agora?

- Começou a discutir com Ares. Ele iniciou, como sempre, dizendo que os titãs não são escravos dos atlantes, e que Chronos é um tirano e blá, blá, blá... Ares não gostou e quase decepou sua cabeça. Por fim, acabou expulsando-o da ilha. E eu... Terei de escoltar o bobalhão à Titânia.

Cassandra fez cara de desaprovação. E depois, tentou concluir simulando mais uma seqüência das runas.

- Esses titãs são mesmo um probl...

De repente, sua voz mudou, ficou grossa. Parecia não ser mais uma garota quem pronunciava.

Essa é a seqüência correta!

Netuno a tranqüilizou. Cassandra estava em transe.

Sobre o livro de pedra estavam as runas posicionadas em três fileiras:

 

           

 

De olhos arregalados, Netuno parecia compreender cada letra do alfabeto rúnico. Porém, antes que pudesse dizer qualquer palavra, Cassandra disparou novamente com voz grave e rouca:

O segredo dos segredos é o fim que leva, traz e leva novamente. Aqui se encerra o poder supremo. Força e soberania para uns. Dor, sofrimento e morte para outros. Avisado está, o preço que pagará por esse prêmio será a alma, sua e de seus semelhantes.

Cassandra estremeceu-se, sentiu-se em vertigem. Foi apoiada por Netuno que a conduziu ao jardim do templo para que respirasse ar puro. Todavia, a moça parecia extremamente extasiada pelo ocorrido.

- Este é um aviso típico dos antigos túmulos lemurianos. Contudo, as serpes o fizeram magicamente a mando do encantamento de Sésamo. Com o poder dessas runas, o que está aí encerrado estará também para sempre escondido. Nem mesmo com toda a magia do universo poderá alguém abri-lo.

- Não se iluda Cassandra. Nada é para sempre. Note que Sésamo necessita de uma chave para fechar, e se o instrumento fecha, ele também abre.

- Você está certo, alteza. Mas eu não faço a mínima idéia de que tipo de instrumento se trata.

- Pedras, cristais, metais... Muitos destes artefatos sempre foram usados para lacrar e cerrar portas e portais. E não duvido que, sendo Cassandra a artífice do encantamento, ela não tenha utilizado uma de suas próprias jóias...

- O que descartaria boa parte das ferramentas usuais de ritos mágicos!

- Precisamos encontrar Pandora. Guarde em segurança este baú. Assim que conduzir o abestalhado à Titânia irei procurá-la. Poder para uns é desgraça para outros, é isso que as runas nos dizem. Mas para quem será a desgraça? Para o portador ou para o portado?

 

O Destino do Segredo

 

Nos dias que se seguiram Cassandra mostrava-se incomodada. Pressentia que algo não estava correto. Seu coração insistia que devia se livrar da arca do segredo. Pela manhã e a tardizinha a jovem profetiza se dirigia aos portos principais de Temyscera, ansiava com todas as suas forças rever Netuno.

            Angustiada pela demora do príncipe e temerosa que alguém curioso encontrasse a pequena caixa, resolveu por fim consultar novamente os oráculos.

            Como da primeira vez, levou consigo a arca. Se não devia abri-la, pelo menos os oráculos poderiam auxiliá-la a compreender o motivo de não fazê-lo. Ela sabia, contudo, que Netuno encontraria uma maneira de extrair da arca a arma que tanto amedrontara Chronos e Zeus. 

            E isso também a preocupava, poder para uns é desgraça para outros. Seja lá o que houver no caixote, quem estaria preparado para tal poder?

            Sua mente mantinha-se inquieta e seu temor crescia a cada instante.

            Quando chegou junto às pedras oscilantes Cassandra parecia ter envelhecido muitos anos. Não queria ser responsável pela desgraça de ninguém. Porém, era ela quem tinha encontrado a caixa, e por isso, sentia-se responsável pelo que podia acontecer doradiante.

            Cassandra confiava em Netuno, entretanto, ele não passava de um menino curioso e disposto a vencer seus próprios limites e temores. Sabia que abrir o baú, descobrir o segredo e se apossar da arma seria para ele uma questão de honra. Todavia, saberia ele lidar com tamanha responsabilidade?

            Cansada de tantas perguntas sem respostas a profetiza fixou seus olhos na bacia de prata. Entregou-se à meditação e caiu no sono.

            A jovem se viu em uma cidade subterrânea. Havia dor e prantos por todo canto. Procurava pelo príncipe altivo, mas só encontrava velhos decrépitos pelo caminho. Repentinamente, divisou um bando de leprosos próximos à arca de Pandora. O artefato estava aberto.

            Ela, morta de curiosidade, começou a empurrar as pessoas de sua frente, mas quanto mais se aproximava da caixa, mais cansada e doente ficava. Parecia, por certo, que ninguém conseguia chegar muito perto do instrumento que brilhava lá dentro, pois morriam antes disso.

            Porém, teve tempo de ver pedaços de suas mãos caindo ao solo fedido antes de perceber estar cega, ao mesmo tempo em que ouvia uma risada sinistra.

            Cassandra acordou em espanto. Contudo, suas visões estavam apenas começando.

            Divisou sombras que dançavam entre as fabulosas pedras que flutuavam e emitiam sons e luzes de diversas cores.

            Os vultos pareciam querer a caixa, mas não tinham coragem de chegar até ela. Entrementes, seus olhos começaram a apreciar uma visão devastadora de crianças mutiladas, homens e mulheres queimados, corpos dilacerados e destruição em todos os lugares. Avistou Shanballa, a capital atlante, e suas formosas portas de ouro em chamas. A fumaça havia tomado conta dos campos e florestas. Os animais morriam aos montes. A terra tremia e os mares estavam escuros.

Entretanto, em meio ao caos, havia um homem que gargalhava com o artefato de madeira em mãos. Parecia bastante satisfeito.

A moça não conseguia distinguir quem era ele, entretanto, seu coração insistia em avisar que ela o conhecia.

Assustada, Cassandra correu em sua posição. O cavaleiro, porém, mantinha-se impassível ao admirar sua conquista. A profetiza tropeçou em uma pequena saliência e caiu em direção a uma das pedras oscilantes.

A colossal rocha não se afastou como sempre fazia quando alguém queria tocá-la, ao contrário, a absorveu por completo.

A pedra mudou de coloração inúmeras vezes e cuspiu Cassandra nos arbustos. A jovem moça encontrava-se desacordada, no entanto, continuava a ter visões com Atlântida e sua destruição.

Viu primeiro uma enorme torre se erguer ao sul do continente atlântico, e depois, lutas quase intermináveis pela disputa pela supremacia das terras das altas colinas. Havia fumaça negra por toda parte e clarões que reduziam à poeira os seres viventes. Avistou a morte e renascimento de cidades majestosas. Por fim, divisou o afundamento e completa destruição das terras dos reis e heróis.

Em sua premonição, Atlântida havia sido literalmente engolida por ondas gigantes e terremotos que partiam a terra em diversos segmentos. Nessas ilhas, sobreviventes lutavam para não sucumbir aos maremotos constantes.

O céu estava cinza e parecia ter chovido por vários dias. Tudo parecia perdido, não havia mais esperança, pois ela tinha abandonado Atlântida para sempre.

Cassandra foi acordada por grunhidos estranhos que as pedras sagradas emitiam. As sombras estavam ao seu redor.

A jovem deu um berro, e de um salto, tomou a caixa de Pandora em seus braços e saiu em disparada.

Em sua mente havia um único propósito: Livrar-se da arca o quanto antes.

Seria muita responsabilidade para uma menina guardar um segredo destes, ainda que seu instinto curioso quisesse conhecer a tal arma. Netuno, por certo,  não seria capaz de manter o segredo velado. Seria uma tentação que ela duvidava que o príncipe herdeiro de Atlantis pudesse resistir.

Fugindo de olhares curiosos e visivelmente abatida, Cassandra entrou no templo dedicado ao Sol.

Naquele local sagrado havia uma paz indescritível. O sumo sacerdote veio ter com Cassandra.

- O que aflige um coração tão jovem?

A menina fixou os olhos negros do bondoso homem e respondeu:

- Eu tomei uma decisão. O senhor acredita que exista um poder que os atlantes não possam controlar?

O velhote coçou as barbas brancas que se sobressaíam em suas vestes douradas e disse:

- Sim, eu acredito. E esse poder minha jovem menina tem um nome, chama-se vida!

Cassandra pareceu entender o significado profundo daquelas palavras. Ficou em silêncio. Seu coração estava em paz. Agora tinha um dever a ser cumprido.

Saiu do magnífico templo feito de mármore branco e paredes transparentes, e desceu o penhasco que levava a um dos tantos portos mercantes que circundavam Temyscera.

A Ilha de Temyscera era um ponto importante e estratégico, pois ficava no caminho entre Atlântida e o norte do continente de Ashartk, uma terra nova e que era habitada por homens de pele clara, cabelos loiros e olhos azuis, os ários. Grandes navios paravam na ilha para se abastecer e seguir viagem.

De seus ancoradores zarpavam embarcações para todos os lugares longínquos, e a menina estava inclinada a esconder a arca em alguma dessas bandas ainda desconhecidas por boa parte dos atlantes, ainda que tivesse que viajar nos veleiros escondida.

Se seu futuro era incerto, a premissa que o destino da arca era a morte marcava o compasso de seus pés, que pareciam se direcionar sozinhos a um barco de sete velas.

Cassandra ficou ali parada vendo o movimento dos marujos que carregavam enormes sacos de cereais e caixotes com mantimentos. De repente, uma nova premonição abateu seus sentidos.

Divisou o veleiro se chocando contra recifes pontiagudos. Parte do casco se rompera e a maravilhosa embarcação foi à bancarrota.

Então, uma idéia esplêndida tomou conta da garota. Achegou-se sorrateiramente a um marinheiro gordo e barrigudo.

- Para onde está indo esse navio, moço?

- Para quê quer saber menininha?

- Sou curiosa.

- Curiosidade matou o gato, sabia?

Cassandra deu um sorriso fingindo graça ao pançudo, que continuou a falar.

- Está bem, vou satisfazer sua curiosidade. Vamos negociar esses mantimentos com o povo dragonitas, conhece?

- Sim, já ouvi falar, vivem na Ilha dos Dragões, não?!

- Isso mesmo, aqueles répteis alados... Tenho medo deles. Um primo meu foi comido vivo... Nem posso lembrar. Foi horrível.

Mas Cassandra nem quis ouvir o resto da história, disfarçou e ficou ali por perto tentando uma brecha para adentrar ao veleiro e esconder no casco, a arca de Pandora.

Sorrateira como sempre, a garota foi ao tombadilho e conseguiu abrir com encantamento um caixote onde havia suprimentos de sementes torradas de girassóis e outros grãos ensacados.

Abra-te SÉSAMO! – Disse a menina, e a caixa estremeceu no chão úmido, abrindo-se em seguida.

Fuçou os cereais e depositou no fundo a caixa dos segredos. Após, mirou seus dedos polegar, médio e indicador da mão direita novamente ao caixote e disparou:

Fecha-te SÉSAMO! – O baú deu um pequeno salto e trancafiou-se. – Esses pobres marinheiros não vão conseguir abri-lo nem em um milhão de anos.

Mesmo assim, o sobrepôs com dificuldade algumas sacas pesadas de trigo e saiu dali apressadamente.

Com a sensação de dever cumprido, a pequena profetiza foi para sua modesta casa e comeu feito condenada. Não conseguira se alimentar direito enquanto mantinha a arca em seu poder. Todavia, ainda tinha um pequeno problema a resolver: Netuno!

 

Uma semana se passara desde que a pequena se desfez do misterioso caixote. Naquela tarde havia previsto que Netuno chegaria, e teria a tarefa de convencê-lo a desistir do artefato.

            Sentou-se tranqüila à beira praia e ficou a observar um grupo de sereias que ensaiavam um balé. Entre saltos e piruetas, a coreografia ia sendo acompanhada por incríveis e gordas nereidas que estouravam ao chegar às areias brancas e finas.

            Aqueles seres eram intrigantes. Faziam-se tangíveis aos olhos humanos e gostavam de permanecer nas cristas das ondas. Porém, não se achegavam à terra, e o fogo era seu elemento inimigo.

            Quando se assustavam com os humanos explodiam aos berros, contudo, eram curiosas e adoravam ficar próximas à arrebentação e pareciam querer estudar os seres viventes da terra.

            As sereias, por outro lado, conviviam harmoniosamente com os homens e mulheres de Temyscera, e ensinavam às vestais a arte da adivinhação e dos estudos rúnicos.

            Runas que, segundo elas, era a linguagem de ouro da antepassada civilização de Mu, o continente lemuriano.

            Por muitas gerações as runas foram passadas. Os sobreviventes do holocausto que fulminou o gigantesco continente ensinaram os segredos rúnicos aos titãs, e esses mais tarde ao povo atlante.

            O continente atlântico também passara por muitas mudanças geológicas e muitos dos arcanos foram perdidos.

            Todavia, Mnemosyne havia conseguido recuperar valiosos papiros que tinham sido deixados guardados no Templo de Delphos localizado em Thálamo, a cidade proibida das sereias.

            Desde então, Mnemosyne tornou-se a guardiã da revelação das runas, e com a ajuda dos sereianos, passou a ensinar o conhecimento velado às vestais.

            Cassandra mostrou-se apta a aprendê-los desde muito cedo e, quando tinha poucos anos de idade, já era capaz de interpretar símbolos rúnicos, o que chamou a atenção das sereias que começaram a treiná-la à arte dos presságios e adivinhações.

            A pequena profetiza estava perdida em devaneios quando avistou um jovem que vinha à passos largos em sua direção. Netuno estava trajando uniforme militar. Parece que o garoto está indo pra guerra. – Pensou.

            - Cassandra que bom que eu a encontrei. Está sabendo das novidades?

            A pequena ensaiou responder e contar tudo o que ocorrera desde sua partida, mas foi interpelada pelo príncipe.

            - Aqueles titãs são loucos. Inteiramente loucos. Imagine você que eles invadiram o norte de Atlântida. Fizeram reféns, ou melhor, os fizeram de escravos... loucos é o que eles são, atlantes... escravos?! Nem pensar. Estão roubando nossas riquezas e saqueando navios e todo tipo de embarcações... O último que fiquei sabendo ocorreu há dois dias, estavam indo descarregar mantimentos na Ilha dos Dragões. Pobres marinheiros... foram degolados... E, depois de não deixarem uma única alma viva, furtaram tudo o que encontraram pela frente e deixaram o veleiro colidir contra os recifes!

            À medida que Netuno falava sobre a invasão dos titãs e como eles eram bocós, o coração de Cassandra disparou. Estão saqueando navios e todo tipo de embarcações... Ilha dos Dragões... A profetiza tentou tapar a boca com as mãos quando Netuno pediu:

            - Cassandra... – Parou para tomar ar. – Precisamos mais que nunca de uma arma poderosa. Onde está a arca? 

            A garota parecia que desmaiaria de tamanho assombro....

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